Nenhuma luta vence o ego. Essa é a tese incômoda de Chögyam Trungpa Rinpoche, apresentada em trechos de "Além do Materialismo Espiritual" (canal Corvo Seco, 22 minutos): o ego não é uma coisa sólida, e sim um conjunto de tendências e eventos que se agarra à ilusão de solidez. Essa ilusão é sustentada por três senhores, a forma, a fala e a mente.
A saída, portanto, não é lutar contra o ego, mas deixar de lutar. Pela meditação, entendida como a arte de não fazer nada, é possível ver as defesas do ego e descobrir que, na ausência de luta, está a liberdade.
Os três senhores do materialismo
O ego governa por meio de três senhores, e quase todos somos administrados por um ou mais deles, inclusive na vida espiritual.
O senhor da forma busca conforto, segurança e prazer físico de forma neurótica. Manifesta-se em elevadores, ar-condicionado, comida processada, telas: na tentativa de criar um mundo confortável e previsível e eliminar qualquer irritação.
O senhor da fala é a aplicação intelectual. Usa conceitos e ideologias como filtro para não ver a realidade diretamente. Nacionalismo, comunismo, existencialismo e até o próprio budismo viram identidades e interpretações que evitam a dúvida.
O senhor da mente preserva a ideia de si mesmo e é o mais poderoso para subverter a espiritualidade: agarra-se ao senso de "eu" e usa a própria prática espiritual para engordar o ego. Daí a advertência velada quando alguém diz "só posso praticar quando alcançar tal emprego ou tal parceiro": a condição é uma defesa do ego, não um requisito.
O mito fundamental: a raiz do sofrimento
Os três senhores seduzem criando um mito fundamental: o de que somos seres concretos, sólidos, estáveis e reais. Trungpa insiste que o mito é falso, "uma imensa fraude e a raiz de todo o nosso sofrimento". Na verdade, o "eu" é apenas um conjunto de tendências e eventos.
Só nos livramos dos senhores se atravessarmos suas defesas, e essas defesas são feitas do material das nossas mentes, fabricadas para preservar a ilusão de solidez. Encarar isso não é agradável, mas é o único caminho.
A meditação: a arte de não fazer nada
O método proposto é a meditação, entendida como "simplesmente criar um espaço em que somos capazes de expor e desfazer nossas neuroses, ilusões, medos e esperanças ocultas". Oferecemos esse espaço por meio da disciplina de não fazer nada.
O ponto central é parar de lutar. O Buda descobriu que a qualidade de "esperteza" só aparece na ausência de luta; a meditação é simplesmente deixar ser. Diante dos pensamentos, a postura é amigável: não são ameaçadores nem úteis, são "tagarelice básica", e devem passar. Alimentar um pensamento, seja por obsessão ou por tentar acalmá-lo, só o fortalece. Em vez de esconder as neuroses, a meditação as deixa aflorar, o que permite relacionar-se com a vida como algo viável.
Há ainda uma dimensão não-dual: a técnica, o meditador e a meditação são um; a técnica não é separada de você. Não é aprendizagem, é experimentação, um sentir e não um "aprender".
A prática no caminho: confusão, descoberta, vazio
Três insights práticos orientam o caminho.
O primeiro: a confusão é matéria-prima, não inimiga. "Qualquer confusão que você experiencie contém automaticamente a essência da sabedoria", escreve Trungpa. "Assim que você detecta a confusão, é o início de algum tipo de mensagem." Reconhecer a confusão já é um nível avançado; ao "queimar confusões", descobrimos a iluminação.
O segundo: espiritualidade não é alcançar êxtase nem virar uma pessoa melhor, mas encarar os fatos da vida. A iluminação não é produzida, é descoberta, e por isso é permanente.
O terceiro: os senhores escalam. Quando você desmascara uma defesa, eles usam outra, das emoções dramáticas aos conceitos de um "mundo sólido". A resposta é sempre a mesma: não incentive nem reprima, apenas observe com clareza.
A boa notícia está no vazio. Trungpa usa a imagem de cair no ar sem paraquedas: a má notícia é que se está caindo no ar; a boa é que não há chão. A abertura é o caminho, e o indivíduo carrega um instinto espiritual, como um cão que aprende a nadar.
O ponto final desfaz o ego na raiz: quem se equivoca nisso é uma mente confusa que tende a se ver como coisa sólida. Fundamentalmente, existe apenas o espaço aberto, o solo básico do que realmente somos antes da criação do ego. Não há nada a vencer, apenas uma ilusão a deixar passar.
Fontes
- Chögyam Trungpa Rinpoche, Além do Materialismo Espiritual — trechos apresentados no canal Corvo Seco (22 min).